Poucas relações bilaterais remodelaram a ordem global de forma tão silenciosa, e ao mesmo tempo tão substancial, quanto o engajamento da China com a América Latina e o Caribe. O que começou como um intercâmbio comercial modesto na virada do milênio, quando a China respondia por menos de 2% das exportações da América Latina e do Caribe em 2000, desenvolveu-se em um eixo central e definidor da geopolítica do século XXI. Pequim já estabeleceu uma ampla presença em infraestrutura energética, minerais críticos, telecomunicações, portos e tecnologia limpa em praticamente todos os países da região, e a crise do petróleo no Oriente Médio em 2026, desencadeada por ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã e pelo quase fechamento do Estreito de Ormuz, acelerou enormemente essa trajetória, transformando o engajamento da China com a América Latina e Caribe de uma preferência estratégica em uma necessidade urgente.
O engajamento da China com a América Latina baseia-se em uma complementaridade estrutural notavelmente durável: a região dispõe dos recursos de que a China mais necessita, hidrocarbonetos, minerais críticos e commodities agrícolas, ao mesmo tempo em que se encontra geograficamente distante da volatilidade do Oriente Médio, que frequentemente ameaça a segurança energética de Pequim. Em contrapartida, a China oferece aquilo que grande parte da América Latina tem dificuldade em obter, financiamento em larga escala sem condicionalidades políticas, acesso a um mercado de enorme dimensão e demanda consistente, além de investimentos em infraestrutura executados em velocidade e escala raramente igualadas por instituições ocidentais.
A crise do petróleo no Oriente Médio elevou essa complementaridade a uma questão de urgência estratégica como 55% das importações de petróleo bruto da China provêm do Oriente Médio e o Estreito de Ormuz se encontra, na prática, fechado à expansão da produção offshore na América Latina, combinada com seu ambiente politicamente mais estável, elevou a região a um novo patamar de importância na arquitetura de abastecimento de Pequim. A guerra no Irã ampliou ainda mais a relevância geopolítica da América Latina.
Os Estados Unidos vêm observando a crescente presença chinesa na América Latina e na região caribenha com preocupação crescente e, por isso, a resposta da atual administração deslocou-se de forma clara e deliberada do engajamento competitivo para uma contenção estratégica ativa. A Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump torna isso inequívoco, como uma prioridade central, negando aos competidores extra-hemisféricos o acesso a ativos estrategicamente vitais no Hemisfério Ocidental.
A estratégia de contenção de Washington opera em frentes sobrepostas e bem definidas, no plano econômico, tem endurecido regimes de sanções e intervindo diretamente na governança de parceiros regionais relevantes para restringir o acesso chinês aos fluxos de hidrocarbonetos; no plano diplomático, tem instado governos da América Latina e do Caribe a excluírem empresas chinesas de grandes projetos de infraestrutura, frequentemente invocando preocupações de segurança nacional, especialmente no campo das telecomunicações.
Além disso, ao assegurar estações terrestres de satélite e contratos de gestão portuária e ao demonstrar disposição, no plano militar, para mobilizar ativos navais próximos a regiões energéticas-chave da América, elevou o custo de risco percebido dos investimentos chineses em áreas politicamente sensíveis. Como resultado, a América Latina encontra-se hoje entre duas visões concorrentes de seu futuro econômico e estratégico, pressionada a escolher, ainda que cada escolha implique custos elevados.
Ainda assim, os benefícios do engajamento chinês para os países latino-americanos são reais, concretos e, em muitos aspectos, difíceis de substituir. O financiamento chinês viabilizou a construção de estradas, ferrovias, usinas hidrelétricas e instalações portuárias que, de outra forma, poderiam ter aguardado décadas por capital. Ao mesmo tempo, a demanda chinesa por commodities impulsionou diretamente receitas fiscais e o crescimento econômico em toda a região, atuando como força de estabilização em momentos de fragilidade da demanda ocidental. Mais importante, no contexto da crise atual, a urgência chinesa conferiu aos governos da América Latina e do Caribe um artíficio raro e poderoso, a capacidade de definir termos, em vez de apenas aceitá-los.
A relação da China com a América Latina não é apenas uma história de benefício mútuo, tampouco se resume à exploração. Trata-se, antes, de uma dinâmica de complementaridade estrutural, inserida em um contexto de crescente assimetria, intensificação da rivalidade entre grandes potências e rápida transformação da geopolítica energética. À medida que a necessidade chinesa pela região se aprofunda, a capacidade de barganha da América Latina e do Caribe se fortalece e a determinação de Washington em contestar cada dimensão da presença chinesa no hemisfério se intensifica. A questão central e mais difícil para o futuro político da região é se os países da América Latina e do Caribe serão capazes de extrair o máximo benefício dessa urgência chinesa sem sacrificar sua autonomia estratégica diante de qualquer uma das duas grandes potências. Não há resposta simples para isso.
Autora
Yanran Xu é Professora Associada na Escola de Estudos Internacionais da Universidade Renmin da China. Atualmente, dirige o programa de dupla titulação “Governança Global e Assuntos Internacionais” e atua como pesquisadora associada na Escola de Estudos Globais e de Área e no Centro de Estudos Americanos da Universidade Renmin. Sua pesquisa abrange as relações China-Estados Unidos, governança energética norte-americana e capacidade estatal, além da economia política comparada da América Latina.

