Pergunta: Seu artigo aponta que a crise do petróleo de 2026 no Oriente Médio tornou a América Latina uma “urgência estratégica” para a China. Do ponto de vista chinês, o que essa urgência significa concretamente para países como o Brasil, mais investimentos ou apenas mais demanda pelas mesmas commodities?
Yanran Xu: Do ponto de vista chinês, a “urgência estratégica” criada pela crise de 2026 no Oriente Médio representa uma mudança estrutural clara e lógica: o Brasil deixa de ser tratado meramente como um mercado fornecedor de commodities e passa a ser visto como um pilar fundamental da “soberania das cadeias de abastecimento”. Portanto, a urgência não se resume ao aumento da demanda, trata-se de uma integração estrutural ativa e deliberada. A China pretende blindar sua economia contra choques geopolíticos participando diretamente da produção e da logística da energia e dos alimentos brasileiros. Para o Brasil, isso significa que a China está agora disposta a realizar investimentos de capital mais significativos em infraestrutura estratégica e, na prática, busca cogerenciar os recursos que antes se limitava a comprar.
Pergunta: Como o Brasil e os demais países latino-americanos poderiam tirar o máximo proveito dessa crescente demanda chinesa? Qual seria uma estratégia inteligente para maximizar os benefícios sem se comprometer em excesso?
Yanran Xu: Para explorar a elevada demanda atual sem se comprometer em excesso, o Brasil e seus vizinhos deveriam adotar uma estratégia sistemática e clara de “Hedging Ativo” por meio de mandatos industriais locais. Em vez de aceitar projetos prontos e acabados, os países poderiam exigir que as empresas chinesas instalem unidades de fabricação locais e transfiram tecnologia como condição de acesso ao mercado, utilizando assim o capital chinês como catalisador para uma reindustrialização doméstica.
Pergunta: O artigo menciona que Washington está ativamente tentando bloquear projetos de infraestrutura chineses na região, especialmente em portos e telecomunicações. Como Pequim planeja responder a isso sem provocar um confronto maior com os EUA? Em seu texto, a América Latina ganhou certo “poder de barganha” porque a China precisa mais da região agora. Poderia dar um exemplo concreto de um país que utiliza esse recurso estratégico: o poder de negociação? E um que talvez tenha falhado?
Yanran Xu: A resposta de Pequim aos esforços de Washington para bloquear seus projetos de infraestrutura é uma manobra bem elaborada de “camuflagem multilateral”, cujo objetivo é reduzir o acirramento do confronto. Por isso, Pequim passou a se afastar dos acordos estritamente bilaterais, “China-only”, e passou a convidar regularmente empresas europeias ou organismos internacionais para integrar seus consórcios na América Latina, tornando politicamente e diplomaticamente mais difícil para os EUA rotular esses projetos como meros instrumentos do expansionismo chinês. O Chile oferece um exemplo bastante claro e bem-sucedido de uso dessa alavancagem: o país utilizou suas reservas de lítio para fazer com que gigantes chineses de veículos elétricos e baterias fossem além da extração e investissem em instalações locais de processamento com valor agregado e em centros de pesquisa, vinculando explicitamente o acesso às matérias-primas a parcerias industriais.
Pergunta: Muitos brasileiros se perguntam se essa relação algum dia vai além da exportação de soja e minério de ferro. A cooperação industrial e a transferência de tecnologia são metas realistas, ou devemos aceitar que nosso papel é principalmente o de fornecedor de recursos?
Yanran Xu: Superar o papel de fornecedor de recursos é uma meta realista, mas apenas se acompanhada de uma “Política Industrial Verde” clara e determinada. Embora a América Latina não esteja necessariamente bem posicionada para competir na eletrônica de consumo em geral, a região está idealmente situada para se tornar um polo global da transição energética, utilizando tecnologia chinesa para construir ônibus elétricos, turbinas eólicas e instalações de hidrogênio verde. Portanto, em vez de aceitar permanentemente o papel de fornecedora de matérias-primas, o Brasil pode negociar ativamente pela integração vertical de suas indústrias garantindo que não exporte apenas ferro e soja, mas sim, aço verde processado e soluções de agrotecnologia construídas sobre uma tecnologia verdadeiramente integrada sino-brasileira.

